Arquivo do mês: julho 2010

Sinal de status, extensão da casa ou meio de locomoção?

Quando comecei a andar de bicicleta e ler matérias sobre mobilidade urbana, sustentabilidade e assuntos conexos, a primeira pergunta que fiz a mim mesmo foi: será que carro é tão importante assim?

Cheguei a uma conclusão um tanto quanto óbvia, porém, completamente inviável para pessoas que não estão dispostas a mudar, independentemente do motivo.

Sei que algumas pessoas que estão lendo isso vão falar que eu não tenho nada mais interessante para fazer (e de fato não tenho), ou que isso não passa de uma idéia tecnocrata barata, mas mesmo assim, acho interessante escrever a respeito, nem que seja para proporcionar um breve momento de reflexão.

Segundo dados de pesquisas recentes, o paulistano passa em média três horas por dia no trânsito.

Se você acha pouco três horas parado num trânsito infernal, faça as contas e veja quantas horas você perde em um ano!

Isso se dá por vários fatores, como por exemplo o crescimento ilógico de São Paulo, onde uma pessoa acaba percorrendo vários quilômetros para ir de sua casa ao trabalho.
É aquele famosa história da cidade que não foi bem planejada, simplesmente cresceu.

Outro fator que colabora significativamente é a quantidade absurda de carros que circulam pelas ruas de nossa cidade.

É impressionante como o paulistano ama o seu carro. É algo até difícil de acreditar.

Desde novos somos condicionados a gostarmos de carro.

O que é a primeira coisa que um adolescente faz ao completar 18 anos?
Tira a sua tão desejada carta!
Faz isto pois em sua mente, carro significa status, significa comodidade, significa o passaporte para a livre locomoção e liberdade (e ocorre justamente o contrário, espertalhão!).

Carro de mulher (não estou sendo machista).

Quantos de nós presenciamos cenas em que a motorista vizinha passa lápis no olho enquanto aguarda o farol abrir?
E o que dizer então do rapaz que estuda em plena 23 de maio, aguardando aquela fila interminável de veículos andar alguns metros?
E quantos de nós nunca fizemos algo parecido?

Passamos tantas horas no trânsito que o incorporamos em nosso dia-a-dia.

Achamos a coisa mais normal do mundo ficarmos parados horas e horas, e para passar esse tempo, realizamos atividades dentro do carro para amenizarmos o tempo perdido.

Já reparou também que a maioria dos carros estão ocupados por uma única pessoa?

Agora eu pergunto: será que o carro é realmente um veículo que de fato tem como objetivo se locomover, ou esse seu objetivo principal acabou sendo desvirtuado pela realidade de São Paulo, se tornando assim um sinal de status ou extensão da casa do indivíduo?

Digo isto pois a sua finalidade principal, que seria se locomover, passou a ser deixada de lado, já que a locomoção em São Paulo está ficando cada dia mais difícil.

É claro que não sou maluco em dizer que carro não é importante. Longe de mim!

O que questiono é: o veículo tem toda esta importância que damos a ele, ou se o mesmo nada mais é do que um meio de locomoção importante, mas por várias vezes passível de substitução por outro meio de locomoção?

Tente pelo menos duas vezes por semana substituí-lo por metro, ônibus, bicicleta, ou qualquer outro meio de locomoção menos prejudicial no tocante a (falta de) mobilidade.

Se realmente não der para abrir mão do carango, tente descobrir se algum conhecido ou amigo vai para o mesmo lugar, ou algum local próximo ao seu destino final e lhe de carona (dividindo a gasolina, claro!). Vai ajudar bastante!

O que não cola mais hoje em dia é dizer que não existem substitutos para o carro. Já virou desculpa de preguiçoso, né?!

Repensem suas atitudes!

É isso ae galera. Até o próximo post!

(Clique aqui para ler o post no blog do Milton Jung sobre a relação da Síndrome de Estocolmo e São Paulo. Se trata de um assunto conexo ao post de hoje. Recomendo!)

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A bicicleta que não gostaríamos de ver

Certas coisas  poderiam simplesmente não existir. Uma delas faz parte do post de hoje.

Sei que a frase mencionada acima é de certa forma uma utopia (vocês entenderão melhor ao final do post), porém, não custa sonhar né?!

Você que está aí sentado lendo este post, já se deparou com bicicletas pintadas de branco em algum canto da cidade?
Se a resposta for sim, por um acaso você chegou a pensar o que ela representa?
Infelizmente, coisa boa não é.

Estas bicicletas pintadas de branco, e por muitas vezes com flores e fotos ao redor, leva o nome de “ghost bike”, ou, na tradução literal, “bicicleta fantasma”.

Elas simbolizam o local em que algum ciclista faleceu, em decorrência de atos que se tornaram comuns em nosso trânsito.

Estas bicicletas se tornam uma espécie de memorial, deixando no local uma homenagem ao ciclista vitimado.

Em uma analogia clara e simples, estas bicicletas podem ser comparadas, ao meu modo de ver, com aquelas cruzes e pequenos altares que encontramos em estradas, tendo basicamente a mesma finalidade que a “bicicleta fantasma”, ou seja, lembrar de forma singela a vítima, e além disso, no caso das bicicletas, mostrar ao público a consequência de “fatalidades” ou atos impensados causados por motoristas de veículos automotores.

Como bem sabemos, é utilizado pela maioria das pessoas o carro como meio principal de locomoção para percorrer qualquer distância, sendo ela considerável ou não.

Ao longo do percurso, o engarrafamento se torna presente na maioria das vezes, tornando assim o deslocamento, obviamente, mais demorado, e por conseqüência mais estressante, sendo este um dos motivos principais que ocasionam as “fatalidades” que presenciamos em nosso cotidiano.

Pesquisas recentes apontam que a cada cinco dias um ciclista morre em São Paulo, em decorrência de “acidente” de trânsito.
Pra se ter uma idéia da proporção disso tudo, em 2007 foram registradas mais de 83 mortes.

Um exemplo claro que acabou fazendo parte desta estatística lamentável foi Márcia Regina de Andrade Prado, que como mencionado no post anterior, faleceu depois de ter sido atropelada por um ônibus na Avenida Paulista.

Para evitar este tipo de “fatalidade”, uma das formas mais eficazes seria a conscientização de todas as pessoas, que de forma direta ou indireta façam parte do trânsito, tendo como objeto principal a conscientização dos motoristas de veículos, causadores da maior parte dos “acidentes” relacionados a ciclistas e pedestres.

A Bicicletada já vem fazendo isso, porém, seria interessante uma atuação mais aguda do Poder Público (este é um dos motivos que tornam a primeira frase do post uma utopia) neste sentido.

É de cortar o coração quando encontro alguma “bicicleta fantasma” nas ruas de São Paulo.
Pensar que ali existia uma vida, que aquela pessoa tinha sonhos e objetivos, que poderia estar voltando do trabalho e que sua  família o aguardava ansiosamente, mas por um ato, na maior parte das vezes impensado, acabou tendo sua vida ceifada.

Será que só eu penso assim?
Será que o motorista do ônibus que atropelou Márcia Prado tinha como única preocupação ultrapassá-la para ganhar alguns minutos em seu percurso?

Sinceramente,  quero acreditar que não.

Faço a minha parte para tentar mudar esta história que sempre acaba com um final nada feliz, e torço todos os dias para não encontrar mais “bicicletas fantasmas” pelas ruas da cidade, e nem me tornar parte desta estatística.

Repensem suas atitudes no trânsito e lembrem-se: ciclista é mais frágil que carro, e assim como você, tem uma família que o aguarda em casa.

Obs: Fuçando em alguns sites e blogs, acabei encontrando uma iniciativa interessante (produção independente – pra variar), onde os idealizadores buscavam arrecadar fundos para a realização de um filme que leva como tema o assunto abordado neste post, e pelo que me parece, já conseguiram seu objetivo.
Clique aqui para ver o vídeo e saber mais sobre o projeto.

Até o próximo post rapaziada!

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